Mito ou verdade?

Glúten engorda? Emagrece? Prejudica o cérebro? Médicos esclarecem o que é fato e o que é boato sobre essa proteína.

  • Gérmen de trigo tem glúten?

    VERDADE

    Em tese, o gérmen não contém glúten, apesar de ser uma parte do grão de trigo. Afinal, ele é uma pequena bolsa que guarda os nutrientes, como as vitaminas B e E, para alimentar uma nova planta. Já o glúten, que é a proteína do trigo, se concentra em outra parte do grão, que é o endosperma. Dentro do grão, portanto, eles estão em pontos separados. Só que o glúten pode contaminar o gérmen depois que o trigo é processado. Quando os grãos são moídos para virar farinha, o glúten acaba se misturando ao gérmen e ao farelo. “Por isso o gérmen de trigo é contraindicado para quem tem doença celíaca ou sensibilidade não celíaca ao glúten. Afinal, pode ter fragmentos de glúten”, explica a nutricionista Vanderli Marchiori, presidente da Apfit (Associação Paulista de Fitoterapia).

  • Aveia tem glúten?

    VERDADE

    O glúten não é uma proteína presente na aveia in natura. Mesmo assim, nas embalagens desse cereal vem sempre o aviso de que esse produto contém glúten. Isso acontece porque a aveia pode ter traços dessa proteína por ter sido contaminada durante seu armazenamento. “No Brasil, ela é quase sempre armazenada, processada e transportada junto com o trigo, então pode ter sofrido contaminação cruzada”, explica o nutrólogo Mauro Fisberg, professor da Escola Paulista de Medicina (Unifesp). Por isso os médicos recomendam a quem tem doença celíaca que não consumam aveia. “Quando se fala em contaminação, é preciso deixar bem claro que o alimento está próprio para o consumo de quem não é celíaco nem tem sensibilidade não celíaca”, esclarece a nutricionista Vanderli Marchiori, presidente da Apfit (Associação Paulista de Fitoterapia).

  • O glúten é tóxico para o nosso organismo?

    MITO

    Até o momento não existem dados para afirmar que o glúten tem propriedades tóxicas que possam fazer mal ao nosso organismo, aponta a gastropediatra Norelle Rizkalla Reilly, que avaliou a literatura médica em torno do glúten e publicou um estudo sobre isso no The Journal of Pediatrics. A pesquisadora também afirma que essa proteína é absorvida sem problemas pelo trato intestinal de quem não tem doença celíaca. “Alguns estudos demonstram a ausência de efeitos tóxicos do glúten. Também há muito debate sobre se o glúten é realmente o gatilho para a sensibilidade não-celíaca.”

  • A farinha branca é mais calórica do que a integral?

    MITO

    Na verdade, a farinha branca e a integral têm o mesmo valor calórico: 340 calorias em cada 100 gramas. Ou seja, a rigor uma não engorda mais do que a outra. A diferença entre elas é que a farinha integral preserva os nutrientes do gérmen e da casca e tem mais fibras do que a branca. Como essas fibras demoram mais a serem digeridas, alimentos feitos com farinha integral dão mais saciedade e elevam mais lentamente o nível de açúcar no sangue. Esses dois fatores, juntos, ajudam a retardar a sensação de fome. Por isso a farinha integral é recomendada a quem está fazendo dieta.

  • Comer carboidrato à noite engorda?

    MITO

    Tem gente que faz dieta e evita comer arroz, batata, macarrão e outros carboidratos no lanche ou no jantar porque acha que comer carboidrato à noite engorda. Será que essa desconfiança procede? “Isso não é real. Todos os estudos mais recentes que comparam as pessoas que param de comer carboidratos às 18h e as que distribuem esse consumo ao longo do dia mostram que é um mito que comer carboidrato à noite engorda”, explica o consultor e professor de educação física Marcio Atalla. “O que realmente importa para engordar ou não é a quantidade de calorias que se consome ao longo do dia e o quanto dessas calorias é gasto. O ideal é ter um consumo de carboidrato fracionado ao longo do dia associado a um estilo de vida ativo e saudável.”

  • A dieta sem carboidratos é mais saudável?

    MITO

    Muitas dietas pregam o fim do consumo de carboidratos como a fórmula ideal para emagrecer. Em curto prazo, as pessoas até perdem peso, pois param de comer alimentos calóricos como pizzas, bolos ou hambúrgueres. Só que, em longo prazo, esse tipo de regime pode ser prejudicial à saúde. “As dietas que restringem os carboidratos têm como base o consumo de verduras, proteínas e gordura. O excesso de proteínas sobrecarrega os rins, pois faz aumentar os níveis de ureia, creatinina e ácido úrico no sangue”, explica a nutricionista Adriana Ávila, da Câmara Técnica do CRN-3.

  • Intolerância ao glúten não existe?

    VERDADE

    Muito se fala em intolerância ao glúten para justificar dietas que excluem essa proteína da alimentação. Mas, a rigor, ela não existe. Uma intolerância está sempre relacionada à dificuldade de digerir um carboidrato. É o caso da intolerância à lactose, que é o carboidrato do leite, ou aos Fodmaps, que são carboidratos de difícil digestão. Como o glúten é uma proteína, não se pode ter intolerância a ele. A doença celíaca, por exemplo, é uma alergia. Isso não significa, porém, que as pessoas não tenham problemas em digerir o glúten, por razões não muito conhecidas e que ainda são objeto de estudo dos cientistas. Quando isso acontece, o correto é dizer “sensibilidade ao glúten”. “Os sintomas da sensibilidade lembram os da Síndrome do Intestino Irritável. Ainda não se sabe se essa condição é devida ao glúten ou aos Fodmaps, carboidratos de cadeia curta, pouco absorvidos”, completa Olga Amancio, presidente da SBAN (Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição). “A agressão à mucosa é menor, e os sintomas são mais brandos do que na doença celíaca. Como o sistema imunológico praticamente não é envolvido, é chamada de sensibilidade.”

  • Consumir glúten demais pode fazer uma pessoa virar celíaca?

    MITO

    O consumo de glúten não faz com que alguém se torne celíaco. “A doença celíaca é genética. Só desenvolve o problema quem tem os genes HLA-DQ2 e HLA-DQ8”, explica Vera Lúcia Sdepanian, professora de gastropediatria da Universidade Federal Paulista (Unifesp). Quem não tem os marcadores genéticos, portanto, nunca será celíaco, mesmo que seja um grande consumidor de produtos com glúten, como pães, massas, biscoitos e bolos. A presença desses genes é necessária, mas não determinante para o aparecimento da doença – há quem tenha os genes e nunca a desenvolva. “Seu gatilho é desconhecido”, diz Sdepanian. Por isso, nem mesmo quem possui os marcadores genéticos precisa evitar o glúten, desde que não apresente os sintomas da doença. “Se não houver exposição ao glúten, nunca haverá a alergia. Mas não faz sentido deixar de consumi-lo por medo de desenvolvê-la”, completa a médica.

  • Cortar o glúten dificulta o diagnóstico de doença celíaca?

    VERDADE

    Tirar o glúten da dieta repentinamente não é uma boa ideia nem mesmo para quem está sofrendo com problemas como diarreias constantes e desconforto abdominal, que podem ser sintomas de doença celíaca. “O grande problema de parar de comer glúten sem orientação médica é que isso dificulta o diagnóstico, pois os exames de sangue que detectam a doença celíaca passam a dar resultado negativo”, explica o gastroenterologista Ricardo Barbuti, secretário-geral da Federação Brasileira de Gastroenterologia. O ideal, portanto, é procurar um médico, que vai indicar os exames necessários e testar a reação do organismo do paciente à retirada gradual do glúten da dieta.

  • Glúten causa inflamação?

    MITO

    Um boato bastante difundido na internet é o de que o glúten causa inflamações no nosso organismo. A verdade é que isso não acontece com pessoas saudáveis, apenas com quem tem doença celíaca ou sensibilidade não celíaca. “Quem não tem essas doenças não tem problemas com o glúten”, esclarece a nutricionista Renata Bagarolli, pesquisadora do Licri (Laboratório de Investigação Clínica de Resistência à Insulina) da Unicamp (Universidade de Campinas), especializado no estudo da microbiota intestinal. Estima-se que, no Brasil, de 0,5% a 1% da população sofra com a doença celíaca, que causa uma inflamação mais severa no intestino se comparada à sensibilidade não-celíaca, que, segundo estimativas, afeta 5% das pessoas.

  • O glúten causa inchaço?

    MITO

    Não é verdade que os alimentos com glúten são os responsáveis pela incômoda sensação de estufamento da barriga depois de comer. “O glúten não causa inchaço na maioria das pessoas, só naquelas que têm doença celíaca ou sensibilidade não-celíaca”, explica o gastroenterologista Luciano Amedée Péret Filho, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Por isso, cortar o glúten da alimentação nem sempre é a solução para não sofrer mais com esse tipo de inchaço. “Muitas vezes as pessoas acham que o problema é o glúten porque ele virou o vilão da moda. Mas outros alimentos podem levar a esse empachamento, como o leite, por exemplo”, completa o especialista. O inchaço também pode ser causado por carboidratos de difícil digestão, os chamados Fodmaps (como brócolis, melancia ou maçã). Quando eles são ingeridos em excesso, o intestino delgado não os absorve com facilidade, por isso os Fodmaps acabam fermentando demais no intestino grosso. Para descobrir se é mesmo o glúten que faz mal, Péret Filho recomenda fazer exames de sangue que detectam a presença de anticorpos que reagem ao glúten. Se esse teste der negativo, as massas estão liberadas. Somente em caso positivo recomenda-se a retirada do glúten da dieta.

  • A doença celíaca pode aparecer na fase adulta?

    VERDADE

    Apesar de a doença em geral se manifestar ainda na infância, é possível que, em alguns casos, ela só apareça na idade adulta. Nessa fase, seus sintomas mais comuns são sentidos no sistema gastrointestinal, como crises de diarreia com dor e desconforto abdominal (saiba mais aqui), mas outros sinais da doença são anemia e dermatite. A doença, porém, só se manifesta em quem tem predisposição genética a ela – não é causada por outros fatores, como comer glúten em excesso. “Quem tem essa predisposição pode se tornar celíaco em qualquer fase da vida. Mas o mais comum é que a doença ocorra ainda na juventude”, explica Jaime Zaladek Gil, gastroenterologista clínico do Hospital Israelita Albert Einstein.

  • Posso engordar comendo produtos sem glúten?

    VERDADE

    Trocar pães, bolos e bolachas por suas versões sem glúten pode se revelar uma escolha errada para quem faz essa opção de olho na balança. Isso porque as farinhas utilizadas no preparo desses alimentos, como a de arroz e a de batata, têm um índice glicêmico (capacidade de elevar o açúcar do sangue) mais elevado. “Entre um pão integral e outro de farinha de arroz, fico com a opção integral, porque vai ter índice glicêmico menor”, afirma a nutricionista Bárbara Rita Cardoso. “Para quem quer perder peso, não adianta nada comer bolo, bala, bolacha e chocolate sem glúten. Isso não vai resolver o problema, porque a obesidade está relacionada a outros fatores também, inclusive o valor calórico dos alimentos que ingerimos.”

  • O glúten cola na mucosa do intestino e causa inflamação?

    MITO

    Um boato que circula bastante nos comentários sobre o glúten na internet é o de que essa proteína gruda na parede do intestino e, por isso, impede a correta absorção de nutrientes pelo organismo por pessoas saudáveis. Essa afirmação, porém, não tem nada de verdadeira. O único problema causado pelo glúten, em pessoas que têm doença celíaca, é que ele ultrapassa a parede do intestino e ativa uma resposta imunológica do corpo que leva a uma inflamação da parede intestinal. “Não há nenhuma evidência de que o consumo de glúten cause problemas como má absorção de nutrientes pelo intestino ou inflamações em pessoas que não têm doença celíaca”, afirma o endocrinologista Marcello Bronstein, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

  • É ruim tirar os carboidratos da dieta?

    VERDADE

    Quem acha que está exagerando no consumo de massas deve maneirar no prato, e não simplesmente riscar os carboidratos das refeições. O mesmo vale para quem não tem intolerância ao glúten e decidiu seguir uma dieta sem grãos acreditando que, assim, vai se sentir melhor. Isso nem sempre acontece. “Os carboidratos são uma fonte importante de proteína e de energia, e têm fibras essenciais para o funcionamento do trato intestinal”, explica o médico Mauro Fisberg, especializado em nutrição e professor da Escola Paulista de Medicina (Unifesp). “Deixar de consumi-los reduz o aporte de fibras que nos protegem de uma série de doenças, como diabetes e hipertensão”, completa.

  • Comer glúten causa o mal de Alzheimer?

    MITO

    No livro “A Dieta da Mente”, o neurologista americano David Perlmutter recomenda eliminar o glúten da dieta para prevenir o aparecimento do mal de Alzheimer e de outras doenças como demência, depressão, ansiedade e epilepsia. Mas, confrontado pelo jornalista especializado em saúde James Hamblin, ele não apresentou estudos convincentes para provar seu ponto. “Não há base científica para afirmar que o glúten cause problemas neurológicos”, ressalta o endocrinologista Marcello Bronstein, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Essa também é a opinião da nutricionista Bárbara Rita Cardoso, que pesquisa o mal de Alzheimer em seu pós-doutorado na Universidade de Melbourne (Austrália). “Não há relação comprovada entre o consumo de glúten e o Alzheimer. O que a literatura científica vem mostrando é que o glúten pode potencializar o quadro de esquizofrenia e de autismo, e não causar essas doenças. Mas isso também não é uma regra.”

  • Quem come glúten fica barrigudo?

    MITO

    No livro “Barriga de Trigo”, uma referência para defensores da dieta sem glúten, o cardiologista William Davis diz que devemos parar de consumir alimentos com glúten porque eles aumentam o nível de gordura visceral, que se acumula nas coxas, nos glúteos, na barriga e até nas mamas dos homens.

    Seu argumento é que isso acontece porque massas e cereais causam picos de glicose do sangue, elevando a produção de insulina e estimulando o acúmulo dessa gordura, especialmente na barriga. A nutricionista Olga Amancio, presidente da SBAN (Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição), discorda. “O glúten é uma proteína, então não tem nada a ver com aumentar o açúcar no sangue e com o acúmulo de gordura. Desconheço um trabalho científico que diga que isso ocorre”, afirma.

    É verdade que alimentos doces e ricos em farinha branca elevam o nível de açúcar no sangue e que seu alto consumo causa obesidade, mas isso tem a ver com seu teor de carboidratos. Além disso, essa regra não vale para todas as massas e cereais. As opções integrais, por exemplo, possuem um índice glicêmico (a capacidade de elevar o açúcar do sangue) tão baixo quanto o de frutas e vegetais. Uma baguete feita com farinha branca, por exemplo, tem um índice glicêmico muito elevado (95 em uma escala de 0 a 100), mas um prato de espaguete integral (42), não – muito menos um de fettucini (32).

    Portanto, a saída para não disparar os níveis de insulina e para evitar a obesidade é ter uma dieta equilibrada, sem exageros à  mesa e moderando o consumo de alimentos que tenham alto índice glicêmico – confira, abaixo, os números sobre alguns alimentos típicos da nossa dieta.

    ÍNDICE GLICÊMICO
    Quanto menor o número, menos o alimento eleva o nível de açúcar no sangue
    Baguete – 95
    Arroz branco – 89
    Biscoito de arroz – 82
    Pizza – 80
    Melancia – 72
    Pão branco – 71
    Banana – 62
    Pão de hambúrguer – 61
    Quinua – 53
    Pão com grãos integrais – 51
    Arroz integral – 50
    Suco de laranja sem açúcar – 50
    Espaguete branco – 46
    Leite integral – 41
    Feijão – 40
    Maçã – 39
    Pera – 38
    Cenoura – 35
    Fettucini – 32
    Lentilha – 29

    Fonte: Harvard Medical School


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