A dieta sem glúten
faz mal?

O que é mito e o que é verdade em pesquisas recentes
que colocam em xeque a exclusão do glúten


Primeiro, o glúten era visto como o vilão da dieta. Agora, os estudos mais recentes apontam que exclui-lo da alimentação aumenta o risco de engordar ou desenvolver diabetes e doenças cardiovasculares. Essas últimas notícias têm levantado uma dúvida: parar de comer glúten pode fazer mal à saúde? “Sim. A exclusão de alimentos que contêm glúten implica na redução do consumo de carboidratos ou na troca por farinhas com alto índice glicêmico [capacidade de elevar o nível de açúcar no sangue]”, afirma a nutricionista Vanderli Marchiori, presidente da Apfit (Associação Paulista de Fitoterapia).

Quando reduzimos o consumo de carboidratos, nosso organismo acaba usando massa muscular como fonte de energia, o que pode levar à sarcopenia (deficiência de massa muscular). “Além disso, o cérebro não funciona corretamente sem energia, portanto reduzir carboidratos faz com que haja alterações de humor e redução de aprendizado e memória.”

Trocar a farinha de trigo por outras farinhas que têm maior índice glicêmico (como a de batata ou a de arroz, por exemplo) aumenta a liberação de insulina para captar esse nível maior de glicose do sangue. Ao longo do tempo, esse quadro faz crescer a probabilidade de desenvolver resistência à insulina, diabetes e doenças cardiovasculares.

A exclusão de alimentos que contêm glúten implica na redução do consumo de carboidratos ou na troca por farinhas com alto índice glicêmico.


Outro ponto preocupante de trocar alimentos com glúten por sua versão sem glúten é que eles podem nos fazer engordar. Ao analisar a composição de 654 produtos industrializados que não continham glúten, pesquisadores espanhóis descobriram que eles tinham mais gorduras (totais e saturadas) e três vezes menos proteínas do que os 655 produtos com glúten analisados para o mesmo estudo. “Trocar pães, biscoitos e pizzas por versões sem glúten implica em desequilíbrio de gorduras, pois o produto necessita de ajustes na receita. Em geral, eles apresentam teores baixíssimos ou inexistentes de fibras e adição de gorduras para conferir a maciez e elasticidade que o glúten confere a esses alimentos”, explica Vanderli.

O estudo espanhol também mostrou que os produtos sem glúten apresentaram maior índice glicêmico. “Considerando esses achados, entendemos que as pessoas que consomem esse tipo de alimento, que também tem maior valor calórico, têm mais chances de serem obesas”, avalia a nutricionista.

Outro trabalho, apresentado em um evento da American Heart Association, sugeriu uma relação entre a dieta sem glúten e o desenvolvimento de diabetes tipo 2. Após acompanhar dados sobre a saúde de quase 200 mil pessoas em 30 anos, os pesquisadores concluíram que o risco de desenvolver diabetes tipo 2 foi 13% menor no grupo de pessoas que comiam mais glúten, em comparação com quem quase não o ingeria.

É importante frisar que esse é um estudo observacional, ou seja, seus resultados ainda precisam ser confirmados por outras investigações científicas. “Se há substituição de macarrão convencional por macarrão de arroz e de pães convencionais por pães com farinhas de alto índice glicêmico, é fisiologicamente compreensível que o risco de diabetes aumente no grupo que tem refeições de alto índice glicêmico”, comenta Vanderli.

Produtos sem glúten apresentam teores baixíssimos ou inexistentes de fibras e adição de gorduras para conferir maciez e elasticidade


Um terceiro estudo realizado por pesquisadore s das universidades Harvard e de Columbia, acompanhou 110 mil pessoas durante 26 anos e constatou que reduzir o consumo de glúten limita a ingestão de grãos integrais, que estão associados à redução do risco de desenvolver doenças cardiovasculares. Por isso, seus autores recomendam não encorajar a dieta sem glúten entre quem não tem doença celíaca. “Toda dieta com exclusão de glúten deve ser orientada por um profissional nutricionista competente”, reforça a nutricionista.

Tudo isso não significa, porém, que quem tem doença celíaca — e, portanto, não pode comer nada que contenha glúten — tenha, necessariamente problemas de saúde. Basta seguir uma dieta equilibrada em termos calóricos e que complemente os nutrientes que faltam nos alimentos sem glúten.

Para reduzir o risco de diabetes, os celíacos devem consumir ao menos cinco porções de vegetais ao longo do dia, 20 g de fibras e controlar o consumo de açúcares, explica a nutricionista. E, para evitar o aumento do risco de doenças cardiovasculares, ela sugere uma dieta rica em frutas, verduras e legumes e que inclua cereais integrais. “Dessa maneira, os riscos são os mesmos que os de quem pode comer glúten.”

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